Livros resenha

Resenha do livro Antifrágil de Nassim Taleb

Nassim Taleb é um autor cultuado no mercado financeiro. Seus livros são versões filósoficas de conceitos financeiros/matemáticos que levantam descobertas sobre a natureza humaa.

Como reverter as crises a seu favor

AutorNassim Nicholas Taleb
OrigemLíbano/EUA
Ano2012
Nota no GoodReads4.10/5.00
Nota do Aprendiz Moderno8.3/10
Ficha Técnica

O livro “Antifrágil – coisas que se beneficiam com o caos” de Nassim Taleb é um livro muito conhecido pelos amantes do mercado financeiro.

Nassim Taleb, antes de se tornar filósofo, era um trader (operador da Bolsa de Valores). Uma baita mudança de carreira diga-se de passagem. Assim, seus livros navegam entre os fatos da vida, a filosofia e a economia moderna. Sempre recheados de um humor irônico e divertido.

Antifrágil é uma coletânea de sete pequenos livros que abordam o conceito de antifragilidade em diversos ângulos, incluindo a parte econômica, que talvez seja a mais famosa.

O conceito de antifragilidade – um neologismo criado pelo autor – é muito mais abrangente do que só querer ganhar um dinheiro na bolsa. É um conceito que abrange como o ser humano existe, consegue evoluir e melhorar em um mundo que está constantemente mudando.

Para mim, um reles engenheiro que gosta de escrever umas coisas aqui e ali, foi uma leitura complexa. Os termos e referências filosóficas nem sempre são óbvios. Recomendo baixar a amostra grátis na Amazon e dar uma conferida antes de comprar o livro. Principalmente, se foi indicação de algum amigo seu que quer ficar rico na bolsa.

Vale mencionar que os livros de Nassim Taleb são interconectados – e sempre focados nos tópicos de probabilidade e natureza humana – então ler o “A lógica do Cisne Negro” antes é uma boa ideia para entender certos conceitos. Da mesma forma o livro “Com a pele em jogo” (Skin in the game) é uma boa continuação.

Abaixo listo meu top 5 ensinamentos do livro.

1. O que significa antifrágil?

Frágil é algo que quebra quando sob algum estresse, seja ele físico (um choque, uma queda) ou psicológico (trauma, falha). Antifrágil é o reverso de frágil.

Ou seja, antifrágil é tudo que melhora quando passa por algum estresse.

Antifrágil é aquele que melhora ao passar por estresse. É o aprendizado que resulta do erro.

A figura acima demonstra como, por exemplo, o ser humano é um ser “antifrágil”. Toda vez que falhamos temos uma oportunidade não só de superar, mas também de nos tornarmos pessoas melhores.

Somos naturalmente antifrágeis quando nos colocamos no mindset correto. E, conforme o autor demonstra em várias partes do livro, isso não é um conceito novo. Ele aparece em diversas partes da nossa história e em diversos campos do conhecimento.  

Um ponto de destaque é que a antifragilidade tem limite. Da mesma forma que um pequeno nível de estresse em um objeto frágil não causa nada – um leve toque numa taça de vidro não a quebra – o oposto é válido: excesso de estresse em algo antifrágil não o ajuda.

“O vento apaga uma vela, mas alimenta uma fogueira”

Nassim Nicholas Taleb

Por exemplo, nosso corpo é antifrágil, ou seja, se não utilizarmos (estressarmos) um certo músculo, com o tempo ele atrofia. Se estressarmos ele acima do normal indo na academia, ele hipertrofia (melhora o tamanho). Porém, treino em excesso na verdade prejudica-o. 

Algo também interessante é que a antifragilidade é conectada com a inovação. A inovação é um processo antifrágil. Ou seja, para inovar, temos que passar por estresses, falhas, dúvidas, traumas, etc.

Nestes momentos, somos capazes de melhorar nossas habilidades e conhecimentos a ponto de conseguir executar planos de forma única ou inovadora. Uma prova filosófica de que inovação e falhas andam juntas.

E falando sobre filosofia…

2. O que estoicismo tem a ver com antifragilidade?

Os filósofos do estoicismo já falavam sobre como devemos fazer escolhas que nos proporcionem mais vantagens do que desvantagens. Foto por jisoo kim.

No livro, Taleb comenta como a praticidade do estoicismo de Sêneca (um dos expoentes desta escola filosófica) conseguiu resolver os desafios relacionados à antifragilidade. Se você não sabe o que é estoicismo, recomendo este post onde escrevi para um blog que fala tudo sobre o assunto.

Sêneca e os filósofos do estoicismo pregavam a filosofia da ação e buscavam focar no que podemos controlar. O que não podemos controlar não merece nenhum segundo gasto.

Isso torna este tipo de filosofia robusta ao destino/futuro. Afinal, não importa o que aconteça no mundo, tentaremos sempre tirar o melhor proveito. Sempre!

O próprio autor menciona, em uma atitude bem estoica, como durante seu período de trabalho como trader – uma profissão que demanda grande controle emocional – sempre tentava imaginar que o pior cenário possível já havia acontecido no dia anterior. Isso o permitia operar de maneira muitas vezes mais arriscada afinal mentalizava como se o resto do dia fosse um grande bônus.

Tal postura estoica permite nos proteger psicologicamente transformando o medo em prudência e sempre tendo em vista que há muito mais coisas a perder do que bens materiais. Uma atitude robusta, porém, como vimos, não o suficiente para ser considerada antifrágil.

No entanto, Sêneca vai além: sendo um dos homens mais ricos do império dizia que tudo era um gasto, se houver algo em retorno isso é um benefício claro. Ou seja, nunca esperava nada em troca, quando recebia algo, o via como uma vantagem.

Desta forma, para tudo que acontecia em sua vida, existia mais vantagens do que desvantagens. E isso é a definição de antifrágil.

“Fragilidade implica ter mais a perder do que ganhar”

“Antifragilidade implica ter mais a ganhar do que perder”

Portanto, seguir em direção à antifragilidade consiste em reduzir as desvantagens e aumentar as vantagens. Isto é, reduzir a exposição a riscos negativos e deixar a natureza inconstante da vida tomar conta.

Esta estratégia tem nome e se chama estratégia Barbell. Estratégia Barbell é a transformação convexa. Transformar uma situação frágil em antifrágil.

Ou seja, sermos robustos com relação a situações desvantajosas ou negativas e nos expor a situações arriscadas que poderão trazer grandes benefícios.

É o jovem que faz faculdade de noite para garantir um futuro (robusto) e de tarde grava vídeos para tentar se tornar um digital influencer de sucesso (antifrágil). Neste cenário existem mais vantagens que desvantagens.

O risco negativo de tentar ser Youtuber é não conseguir dinheiro (resolvido pela faculdade que garante uma condição estável) e o risco positivo é imensurável!

3. Como a universidade ensina pássaros a voar

As universidades ensinam o que humanos naturalmente conseguem fazer. Foto por Shwetha Shankar.

O livro trata sobre o conceito de opcionalidade. Fazendo um paralelo ao conceito de opções do mercado financeiro, Taleb consegue mostrar que, quando estamos em uma posição antifrágil, necessitamos de menos informação para termos sucesso.

Pois, se temos mais vantagens do que desvantagens em uma determinada atividade (definição de antifrágil) basta explorarmos ao máximo o processo de tentativa e erro. Afinal os erros vêm com um custo limitado e conhecido (se não, isso não seria algo antifrágil) e os benefícios vêm de maneira ilimitada (ou com limite desconhecido).

Por exemplo, os empreendedores do Vale do Silício que criam suas empresas startups sabendo o quanto podem perder (no máximo todo valor investido) e os retornos podem ser ilimitados (uma empresa que irá transformar o mundo). Uma opção um tanto quanto antifrágil.

Lembrando que o conhecimento sobre o assunto é necessário. Ou seja, tentar por tentar, ou errar por errar não é uma atitude antifrágil.

Quanto mais conhecimento tivermos mais fácil se torna utilizar a volatilidade da vida a nosso favor.

Nesta parte do livro, Taleb levanta uma discussão sobre o fato de que o conhecimento necessário para a antifragilidade e para o sucesso é um conhecimento empírico (tentativa e erros aplicados no mundo real) e muitas vezes criticado pelos acadêmicos.

Fica fácil de entender quando observamos que a maioria dos empreendedores de sucesso não passou tanto tempo na faculdade (muitos até largaram a faculdade pela metade) afinal o conhecimento necessário para o sucesso de suas opções (no caso, empreender) se encontrava fora do ambiente acadêmico.

Existe uma ilusão de que o ambiente acadêmico é o que gera inovação e muda o mundo, mas na verdade o empreendedorismo vem da experiência do dia a dia que está presente em cada empreendimento vivo.

Inovação vem das tentativas de milhares de empreendedores que tentam explorar oportunidades muitas e muitas vezes e por diversos ângulos. Sempre em busca de reduzir o custo das tentativas (desvantagens) e sempre procurando o maior retorno possível (vantagens).

Muitos imaginam que o conhecimento científico gera tecnologias que geram inovações. Sendo que na verdade, em muitos campos, o que ocorre é a prática de empreendedores gerando teorias que são após muitos anos validades através das universidades.

O autor chama essa ilusão de que o mundo só funciona por causa das faculdades de ensinar os pássaros a voar:

Imagine se déssemos um curso de voo para os pássaros. Logo em seguida eles saem voando e concluímos que eles só sabem voar porque fizeram faculdade de voo e assistiram todas as nossas aulas.

Como um estudante assíduo e mestre em engenharia, confesso que essa parte do livro me fez repensar muito do papel da faculdade não como forma de mudar o mundo, mas como forma de ensinar conhecimentos básicos para uma pessoa sobreviver no mundo real.

A faculdade nos torna robustos – provendo conhecimentos e conexões necessárias para o mercado de trabalho – mas para explorar as vantagens do mundo precisamos ir além, precisamos nos tornar antifrágeis.

Precisamos detectar as fragilidades da nossa vida (falta de conhecimento, motivação, saúde física e mental, rede de contatos, etc) e reduzi-las de modo que estejamos sempre em uma posição vantajosa (vencer ou vencer). E isso é uma atitude que as faculdades não ensinam.

4. Côncavo x Convexo

Côncavo e Convexo são opostos. Em um a curva se abre para o positivo. No outro, para o negativo. Foto por Tom Keighley

Nas partes finais do livro, o autor descreve uma regra simples para detectar situações frágeis. Observar a convexidade da situação. Convexo é algo que possui a forma de U. Ou seja, quanto mais se distanciar do seu centro mais alto fica. O meio do U é o ponto mais baixo.

Se avaliarmos os ganhos/vantagens de uma situação com respeito a oscilações para ambos os lados e eles forem maiores do que o estado atual então estamos em uma situação antifrágil. Afinal, os planos nem sempre saem como esperado e oscilações tanto para um lado como para o outro acontecerão.

Um exemplo é uma empresa que projeta seus lucros baseada em cenários econômicos.

Para saber se a empresa está em uma situação frágil basta verificar se para cada aumento ou redução de vendas (ou qualquer outra variável) em uma determinada porcentagem – digamos 10% – qual será a variação nos lucros.

Se os lucros aumentam muito menos caso as vendas subam acima do esperado, ou principalmente, se os lucros caírem absurdamente caso as vendas não saiam como o esperado então temos uma empresa em uma situação frágil.

Parece muito simples, e na verdade é.

No entanto, muitas pessoas se deixam levar por modelos e projeções e esquecem que vivemos no mundo real. Um mundo onde qualquer coisa (inclusive uma pandemia mundial) podem acontecer de um mês para o outro.

“Na vida, alcançamos a antifragilidade não sendo idiotas.”

Nassim Nicholas Taleb

5. Menos é mais

Certos conceitos como a antifragilidade, por mais que sejam recentes, sempre estiveram presentes na sociedade. O fato de que não se existia uma definição sobre o termo não significa que as sociedades antigas não se beneficiaram disto.

Por exemplo, Sêneca com o estoicismo já falava sobre a antifragilidade, apenas não dava um nome para ela.

Um caminho para descrever certos conceitos indiretamente é usar a Via Negativa. Este termo em Latim significa descrever algo de maneira indireta descrevendo o que algo não é.

O autor então oferece uma regrinha para evitar cair em armadilhas de fragilidade. Assim como as pessoas de sucesso, devemos utilizar a Via Negativa:

  • As pessoas enriquecem evitando ir à falência.
  • Subimos na carreira evitando erros éticos.
  • Não nos tornamos efetivos porque dizemos sim para certos projetos, mas porque dizemos não a todo o resto.

“Na verdade, estou tão orgulhoso das coisas que ainda não fiz quanto das coisas que já fiz. Inovação é dizer não a mil coisas.”

Steve Jobs

É impossível afirmar se uma pessoa bem-sucedida é assim pelas suas habilidades ou se uma pessoa com habilidades será bem-sucedida. Mas podemos prever o negativo, isto é, uma pessoa sem habilidades muito provavelmente acabará falhando.

E por fim, ele define a tática do “menos é mais”.

Segundo o autor, se tivermos mais de uma razão para fazer algo, o melhor a fazer é não fazer nada.

Afinal, se temos mais de uma razão, estamos muito provavelmente tentando nos convencer a fazer algo. Decisões óbvias exigem apenas um único motivo e não mais que isso.

Da mesma forma, uma das melhores maneiras de ser futurista (projetar o futuro) não é tentar adivinhar as tecnologias que estarão disponíveis (carros voadores, robôs inteligentes, etc). Mas sim retirar do futuro o que não o pertence. Subtrair situações que não existirão.

Cisnes Negros positivos são tão imprevisíveis quanto negativos. Ou seja, prever o futuro diretamente pode ser uma tarefa bem difícil. Porém, subtrair o que sabemos que eventualmente irá desaparecer é um exercício talvez mais fácil.

Algumas vezes, menos é mais.

Conclusão

Algumas coisas se beneficiam do caos e dos problemas. Elas prosperam quando são expostas aos riscos da vida. Ao tentarmos ser mais antifrágeis, conseguimos remover as fragilidades da nossa vida e nos tornarmos cada vez pessoas melhores.

O caos e os problemas sempre existirão, podemos nos beneficiar ou nos prejudicar. A antifragilidade é a medida destes benefícios.

Antifragilidade implica ter mais a ganhar do que perder.

Minimizar as desvantagens de modo que para tudo que fizermos sempre haverá mais vantagens do que desvantagens é o cerne do conceito de antifragilidade.

Desta forma, viver a vida e experimentar novidades e acontecimentos sempre será melhor que não o fazer. Afinal, quanto mais experiências, mais vantagens, maior a chance de sucesso. Um ciclo positivo onde existe uma tendência à ação.

O livro é uma discussão densa abordando por vários ângulos – da estatística à filosofia grega – a necessidade dos seres vivos de agentes estressores. Sermos super protetivos com nossos filhos, nossa economia, nossa própria vida moderna é um grande risco no caso de sermos antifrágeis (reduzir desvantagens e aumentar as vantagens em qualquer coisa que fizermos).

Uma leitura fantástica que me abriu a mente para temas como ciclo de crises econômicas, a inovação como reação natural à falha e como o conhecimento pode nos auxiliar a evitar Cisne Negros.

Necessitamos do estresse do dia a dia para aprendermos. Da mesma forma que a criança precisa tropeçar para aprender a andar, os nossos erros e falhas nos tornam quem somos.

Existem estratégias para conseguirmos balancear o risco do dia a dia e se posicionar de modo antifrágil é essencial.

  • Possuindo diversas fontes de renda.
  • Aprendendo diversas habilidades.
  • Apreciando as tentativas que deram errado em nossas vidas.
  • Utilizando nossa natureza para entender como a economia funciona.

Passamos por crises econômicas, sociais, pessoais e familiares e iremos passar por outras. E isso não só é algo bem-vindo como parte da natureza humana.

Abrace sua natureza e tente tirar o máximo proveito das aleatoriedades da vida.

Sobre o autor

Nassim Nicholas Taleb – Fonte: Wikipédia

Nassim Nicholas Taleb é um filósofo, estatístico, acadêmico e ex-trader no Wall Street. Nascido no Líbano, se mudou para os Estados Unidos quando jovem devido à guerra em seu país natal.

Iniciou sua carreira no mercado financeiro e após alguns anos largou para se dedicar ao estudo da probabilidade e filosofia. Seus livros são aclamados por uma legião de fãs no mundo dos investimentos.

Alguns de seus livros são “A Lógica do Cisne Negro“, “Arriscando a própria pele” e “Iludidos pelo acaso“.

Professor em gestão de risco em diversas universidades americanas ficou conhecido por suas críticas pesadas a economistas contemporâneos e aos métodos utilizados no mercado finaceiro. Alertou sobre diversas crieses inclusive sobre a crise de 2008 e possíveis pandemias.

Seus livros são conhecidos pelo humor ácido e críticas diretas a seus pares.

DESAFIO DO APRENDIZ MODERNO: Ler a introdução do livro Antifrágil (de graça no site da Amazon) e listar 3 ideias que você pode pôr em prática esse mês para começar a se tornar mais antifrágil.

Comente o que achou desta análise!

Brasileiro vivendo na Holanda viciado em livros e em aprender coisas novas. Meu objetivo é ajudar muitas pessoas a se tornarem melhores e mais capazes através do esforço próprio para no futuro poder causar um impacto positivo no mundo.

0 comentário em “Resenha do livro Antifrágil de Nassim Taleb

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: