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Quer mudar o mundo? Arrume a sua cama

Todos nós temos dias fáceis e dias difíceis. Por vezes, os nossos planos se concretizam, nós aprendemos coisas novas, temos novas experiências. Outros dias, a vida pode se mostrar dispersa, inconsequente, fatalista, sem que nada dê certo.

William H. McRaven, almirante aposentado da Marinha americana, ensina uma lição que pode mudar sua vida: arrume a sua cama.

Todos nós temos dias fáceis e dias difíceis. Por vezes, os nossos planos se concretizam, nós aprendemos coisas novas, temos novas experiências. Outros dias, a vida pode se mostrar dispersa, inconsequente, fatalista, sem que nada dê certo. 

Uma coisa é invariável: você vai precisar levantar e enfrentar tanto os dias fáceis quanto os dias difíceis. Essa dificuldade é compreensível, já que, às vezes, até mesmo o Imperador tem preguiça .

Não é incomum que as pessoas procurem soluções mágicas para os problemas que encontram. Qual será a pílula que resolve esse problema? Será que se eu continuar fazendo as mesmas coisas os meus problemas vão desaparecer? Ou será que se eu simplesmente sumir os problemas também somem?

Estas perguntas parecem pouco razoáveis quando colocadas nesse contexto. Afinal de contas, se eu não mudo as minhas atitudes, por quê as consequências das minhas atitudes iriam mudar?

Por outro lado, mudar não é fácil. É um processo por vezes doloroso, prolongado, contra-intuitivo. Escrevo hoje para falar sobre como você pode tentar mudar não só a si mesmo, mas como você será capaz talvez de mudar o mundo por meio de uma simples tarefa: arrume a sua cama.

Para entendermos como arrumar a nossa cama pode ser capaz de mudar o mundo, é preciso tratarmos de um dos discursos mais tocantes dos últimos anos, proferido pelo Almirante McRaven à turma de formatura da Universidade do Texas em Austin, em 2014.

A lição do Almirante McRaven

Eu sempre fui apaixonado por discursos históricos. Eu não consigo imaginar a coragem de Churchill quando foi à House of Commons proferir o discurso “Finest Hour” (“a hora mais importante”, em tradução nossa) quando a França tinha sido derrubada em apenas duas semanas pelos Nazistas. Permito-me uma breve incursão nesse fato histórico.

Discurso clássico de Winston Churchill “Finest Hour” (A hora mais importante) – Em inglês com legenda.

Quando assumiu o cargo de Primeiro-Ministro após a falha de Chamberlain em deter os nazistas, Churchill fez um discurso duro, mas otimista, chamado “Blood, toil, tears and Sweat” (“sangue, trabalho, lágrimas e suor” em tradução nossa), afirmando que a única coisa que os britânicos poderiam oferecer à ameaça nazista era o seu sangue, trabalho, lágrimas e suor e que seria alcançada a vitória apesar de todo terror, já que sem vitória não haveria sobrevivência .

Quando a França demonstrou fraqueza e dificuldade em repelir os alemães, Churchill foi novamente ao povo conclamar que o povo britânico irá lutar nas praias, nos mares, nos oceanos, na terra, nas ruas, nas colinas, e que o povo britânico jamais irá se render: “We shall fight on the beaches” (“nós vamos lutar nas praias”, em tradução nossa).

A França caiu em duas semanas. Ao invés de se amedrontar, Churchill proclamou que a Batalha da França tinha se encerrado, agora se iniciava a Batalha da Inglaterra e que dessa batalha dependia o sucesso de toda a civilização.

Se a Inglaterra falhasse em defender a civilização, então todo o mundo, e tudo que os britânicos se importavam, se afundaria em um abismo negro de uma era sinistra, à luz de uma ciência perversa. Caso o Império Britânico durasse mais mil anos, seria certo que os homens olhariam para trás e falariam: essa foi a nossa hora mais importante .

Eu me arrepio de pensar na força deste homem em face do terror absoluto do nazismo. Eu me impressiono com a coragem de Martin Luther King Jr. ao afirmar que apesar de todo preconceito, os negros iriam ocupar as colinas da Geórgia, que Mississipi seria um oásis de liberdade e justiça, que no Alabama, estado historicamente maculado pelo racismo, os irmãos brancos e negros iriam circular livres nas ruas .

O clássico discurso “I have a dream” de Martin Luther King Jr.

Mais recentemente, um discurso de formatura proferido por Steve Jobs, em 2005, na Universidade de Stanford ficou bastante famoso por suas três lições, ilustradas pelos exemplos da vida de Jobs. Destas três, a lição que mais me marcou é a primeira: conecte os pontos. 

Embora Jobs talvez pensasse que assistir aulas de caligrafia em um monastério budista enquanto faltava às aulas não fosse uma boa ideia, essas lições de tipografia eventualmente se destacariam nos produtos Apple e seriam copiadas pela Microsoft.

Assim, mesmo se fosse impossível entender naquela época a utilidade do que ele estava aprendendo, essa habilidade fez todo o sentido no futuro. É preciso, então, confiar no seu instinto com relação às suas escolhas e entender que, mesmo se as coisas não estiverem claras agora, elas farão um maior sentido no futuro.

Discurso de formatura da turma de 2005 da Universidade de Stanford proferido por Steve Jobs (fundador da Apple)

Apesar de mais desconhecido, talvez o discurso que mais me tocou pessoalmente foi aquele proferido pelo Almirante William McRaven, em 2014. A sua lição é tão forte, tão direta e tão concisa que, para mim, tornou-se inescapável e orientou grande parte da minha trajetória nos últimos anos.

O discurso do Almirante William McRaven em 2014 na Universidade do Texas.

A mensagem de McRaven é simples: se você quiser mudar o mundo, comece arrumando a sua cama.

McRaven foi um SEAL  por 36 anos. Os SEALs são a elite do exército americano: eles são selecionados entre os melhores soldados do exército e são treinados nas condições mais difíceis, incluindo exposições a afogamento, hipotermia, deprivação de sono, entre outros. Eles são treinados para operar em todo ambiente (terra, água e mar) e para fazer o que for necessário para cumprir o objetivo de forma oculta aos olhos do inimigo. Para o SEAL, o único dia fácil foi ontem.

Todos os dias de um SEAL em treinamento se iniciavam com a tarefa mais mundana: a inspeção da cama. Os cantos devem estar quadrados, a cobertura deve estar esticada, o travesseiro no centro e o cobertor extra deve estar dobrado e guardado no pé da cama. Se não estivesse perfeito, os SEALs refariam a cama quantas vezes fossem necessárias.

Qual lição McRaven extrai disso? 

Se você arrumar a sua cama toda manhã, você terá cumprido a sua primeira tarefa do dia. Essa tarefa vai proporcionar a você um pequeno senso de conquista e te motivar a fazer outras tarefas e então outras tarefas. Ao final do dia, uma tarefa completa acarretou em várias tarefas sendo completadas. Arrumar a sua cama também reforça o fato de que as pequenas coisas importam e, se você não consegue fazer as pequenas coisas direito, você nunca irá fazer as grandes coisas direito.

Ainda, se você tiver um dia muito ruim, você irá retornar para uma cama feita – que você fez – e isso dará a você um pequeno encorajamento de que amanhã será um dia melhor.

Assim, se você quiser mudar o mundo, comece arrumando a sua cama.

Você já amarrou os sapatos hoje?

Você já amarrou os sapatos hoje? Se sim, você não é um fracasso. Foto por Rosie Fraser.

Eu sou saudável e, até um tempo atrás, não arrumava a minha cama. Eu aprendi a minha lição e nada melhor do que uma cama bem arrumada após um dia cansativo.

Mas nem todos são saudáveis como eu. Nesse momento, pessoas muito nobres estão internadas, com dificuldade de andar, respirar, enxergar e ouvir. Talvez para muitas pessoas fazer atividades que parecem pequenas seja, na realidade, um grande desafio. Talvez elas nunca voltem a fazer atividades que um dia tanto desejavam.

Uma das reclamações mais comuns no leito da morte é que a pessoa gostaria de ter tido coragem de viver a vida com os seus próprios sonhos e aspirações – como ela mesmo era, não como os outros queriam que ela fosse. Essa foi a constatação da enfermeira australiana Brownie Ware em “I whish I hadnt worked so hard” (“Eu gostaria de não ter trabalhado tanto”, em tradução nossa) .

Um motivo recorrente para justificar a falha em irmos atrás dos nossos sonhos é que nós já tentamos, não deu, as condições não eram adequadas, eu mudei de ideia, entre outros. A resignação do indivíduo às vezes chega ao nível dela ou dele pensar “eu sou um fracasso”.

Você já amarrou os sapatos hoje? Se sim, você não é um fracasso.

Amarrar os sapatos não é uma atividade fácil ou trivial. Em algum momento, você não sabia amarrar os sapatos. Você aprendeu, seja pela imitação dos outros, ou com algum tutor em sua vida. Você teve a dificuldade e aprendeu a supera-la.

A ilustração da nossa ideia com o ato de amarrar os sapatos é proposital. É recorrente a indicação da realização de pequenas tarefas diárias para combater quadros clínicos de depressão. O paciente é orientado a arrumar a cama, amarrar os sapatos, vestir uma roupa nova, fazer uma comida simples, entre outros.

Um tratamento recorrente para veteranos de guerra que sofrem de stress pós-traumático ou que sofreram feridas irreversíveis é a orientação de que eles sempre tentem fazer o máximo de tarefas possíveis, exceto se a pessoa pedir para você. Se o veterano só possui uma mão, não corte a carne dele e não amarre os seus sapatos, salvo se ele pedir.

Parte da reabilitação da sociedade envolve a recriação de autonomia destes indivíduo infelizmente afetados por eventos tão traumáticos.

Também envolve acostumar as pessoas ao novo “normal” que elas irão passar a viver e focar nos pontos positivos, ou seja, no que elas são de fato capazes de fazer, ao invés de aprofundar em suas deficiências.

Não é incomum, por exemplo, que sequer seja dado um nome para a condição clínica, já que o indivíduo gosta de se apegar a títulos como “depressão”, “ansiedade” e “stress pós-traumático”. A vida deve ser, então, vivida dia-a-dia, desafio a desafio, tênis amarrado por tênis amarrado.

Você provavelmente não foi afetado por um evento tão traumático. Você tem autonomia. Você aprendeu a amarrar os seus sapatos. Você consegue aprender a tocar um instrumento, fazer uma faculdade, escrever um livro, encontrar um novo emprego. 

O que te afasta mesmo dos seus sonhos?

O que te afasta mesmo dos seus sonhos? Foto por Sasha Freemind.

Se por um lado amarrar os seus sapatos é a prova de que você é capaz de alcançar os seus sonhos, por outro lado, você não vai escrever um clássico da literatura em seu primeiro manuscrito. É claro que a disciplina e trabalho duro serão as qualidades que efetivamente levarão você ao seu objetivo

Mas não é disso que eu quero falar por último. Eu gostaria de explicar para você que é hora de você cantar enquanto estiver coberto de lama, no frio.

Você já começou a cantar enquanto estava coberto de lama?

Nada é mais poderoso que a esperança. Fonte: Pixabay

McRaven encerra o seu discurso com um exemplo bastante marcante sobre trabalho em equipe. Ou melhor dizendo, sobre a importância inesperada de cantar enquanto se está coberto de lama ao relento.

O treinamento SEAL culmina com a “Hell Week” (“Semana do Inferno”, em tradução nossa). Por uma semana, os recrutas são expostos às piores condições possíveis de sobrevivência, com menos de 2 horas de sono em 3 dias, atividades físicas contínuas, aulas educativas no período da manhã e com os instrutores falando para os recrutas desistirem em todas os momentos.

Era quarta-feira na Semana do Inferno, conta McRaven, e os recrutas teriam sido ordenados a rolarem na areia, se banharem na água e ficarem por 15 horas tentando sobreviver aos ventos congelantes e a pressão incessante dos instrutores para os recrutas desistirem.

A lama cobria todo o corpo dos recrutas, com exceção dos olhos. Após sete horas, os instrutores disseram que poderiam libera-los do sofrimento se somente cinco recrutas desistissem. Era evidente que alguns recrutas estavam prestes a desistir e o barulho do ranger dos dentes de frio era tão alto que mal se escutava os próprios pensamentos negativos.

Então, espontaneamente, um recruta começou a cantar muito, muito mal afinado. A música era horrível, mas era cantada com muito entusiasmo. A essa voz uma outra se juntou, e então outra, e então mais uma, até que todos recrutas estavam cantando.

Os instrutores ameaçaram com mais tempo na lama se a cantoria continuasse. Mas os recrutas sabiam que se continuassem cantando, a lama pareceria mais quente e, se um homem fosse capaz de sobreviver àquela miséria e ainda cantasse, então todos conseguiram sobreviver e cantar.

Nada é mais poderoso que a esperança. Uma única pessoa é capaz de mudar o mundo ao dar esperança para as pessoas.

Então, se você quiser mudar o mundo, comece a cantar quando estiver com lama até o pescoço.

Arrumando a cama, amarrando os sapatos e cantando na lama

Comece o dia completando uma tarefa. Encontre o apoio dos outros. Respeite a todos. Saiba que a vida não é justa e que você irá falhar frequentemente. Mas aceite riscos e encare aqueles que tentam intimidar você. Assim, aos poucos, a próxima geração e aquelas que a sucedem poderão viver num mundo muito melhor do que temos hoje, encerra McRaven.

Marco Aurélio Garcia é Mestre em Direito Internacional pela Universidade de São Paulo e Mestrando em Direito Europeu pela Université du Luxembourg. É sócio-fundador do escritório de advocacia Costa & Garcia Advogados. Um dos poucos escritórios no Brasil especializados em startups.

1 comentário em “Quer mudar o mundo? Arrume a sua cama

  1. Sua escrita em minha leitura foi muito prazerosa.
    Nas suas nobres palavras e exemplos de grandes personalidades que lutaram muito por sonhos, algumas vezes realizados outros frustrantes, mas a luta continuou…Arrumar a cama e Amarrar o cadarço dos sapatos é um desafio para aqueles que não tem o hábito do dia – a – dia.
    Seus exemplos simples, de como vencer as dificuldades me fez refletir.
    Na certeza de que com todas as dificuldades que encontrei pelo meu caminho, foram vencidos pelos simples fato de ter que aprender a arrumar minha cama e Amarrar sozinha os meus calçados.
    Parabéns texto reflexivo demonstra sua sabedoria!

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