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Valeu a pena ter feito intercâmbio?

Mestrado? Pós? Aprender uma nova língua? Muitas pessoas têm este sonho de morar no exterior como experiência de vida e também para obter melhores chances no mercado de trabalho.

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Mestrado? Pós? Aprender uma nova língua?

Muitas pessoas têm este sonho de morar no exterior como experiência de vida e também para obter melhores chances no mercado de trabalho.

Afinal, quem mora no exterior sempre volta com uma chance maior de conseguir emprego, certo?

Bem, não acho que a relação seja assim tão direta…

Existem pessoas que se beneficiam e muito de um intercâmbio fora. Porém, existem algumas variáveis a se considerar. Duração, flexibilidade e custos.

Cerimônia de formatura da minha turma de mestrado em Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos (2017)

Eu fiz mestrado no exterior e morei nos Emirados Árabes – uma escolha no mínimo exótica – e posso te adiantar que foi uma das melhores escolhas que já fiz na vida. Fui com bolsa de estudos e morei em Abu Dhabi (a cidade do GP de fórmula 1) por dois anos inteiros antes de voltar pro Brasil.

Porém sei de outras pessoas que fizeram intercâmbios e passaram por perrengues e situações ruins.

Geralmente, estes programas são pacotes fechados, ou seja, uma vez lá não tem muito para onde correr já que boa parte é paga antecipadamente.

Mas afinal, vale a pena ou não?

Neste post vou falar sobre alguns pontos a se levar em conta na hora de fazer intercâmbio como forma de aprendizado.

Os vários tipos de intercâmbio

Existem vários tipos de intercâmbio: high school, pós-graduação, cursos organizados no Brasil com visitas a organizações no exterior, também conhecidas como imersões, e cursos de idioma.

Cada um tem um tipo de público específico e traz um tipo de benefício diferente.

High school – É o equivalente ao ensino médio aqui no Brasil. Alguns pais mandam seus filhos adolescentes para passar um ano morando com uma família em algum outro país (geralmente EUA) enquanto estudam em escolas parceiras por lá. O objetivo geralmente é melhorar o Inglês e ter uma experiência de high school americana. Cursos de idiomas são similares, apenas não contam para o ensino médio.

Pós-graduação – Desde cursos de 3 meses até mestrados (2 anos) ou doutorado (4 anos) com objetivo de aprender tópicos relacionados com a sua carreira ou uma nova área. Muitas pessoas vão para o mestrado como forma de tirar 2 anos para replanejar a carreira enquanto desenvolvem novas habilidades. Além de conhecer muita gente nova.

Imersões – São viagens bem específicas organizadas por empresas no Brasil onde um grupo vai junto para um determinado local ou evento a fim de conhecer e interagir com as pessoas lá que tem um mesmo gosto em comum. Seja empreendedorismo, inovação, tecnologia, games, etc.

Bolsas de estudo

A maior parte dos intercâmbios é 100% paga. Algumas oferecem algum tipo de desconto, mas no final das contas sai mais caro que viajar para o país sozinho.

E por que pagar para ir através de uma agência? Ao meu ver se resume em uma única coisa: networking (rede de contatos).

Essas agências ou empresas geralmente têm contatos que facilitam certas experiências como morar com uma família americana (high school) ou visitar uma empresa ou grupo em outro país (imersão). Algumas também facilitam o pagamento no Brasil (parcelamento) o que torna mais acessível do que pagar diretamente para uma escola/curso no exterior.

Para a área acadêmica (mestrados e doutorados) existem parcerias e bolsas de estudo. E foi com uma delas que eu fiz o meu intercâmbio (mestrado).

As bolsas se dividem em três tipos:

Bolsas governamentais – Exemplo: Erasmus Mundus (União Europeia) e bolsas (grants) dadas pelos governos.

Bolsas de universidades – Algumas universidades concedem bolsas para estrangeiros através de doações de ex-alunos (alumni), parecerias e incentivos. As universidades sabem o poder da diversidade e estão sempre em busca de pessoas diferentes para agregar às pesquisas.

Bolsas de empresas – Empresas como o Santander chegaram a distribuir bolsas para auxiliar nos custos de um curso no exterior (Espanha, México, etc.) e são concedidas através de aplicações (tipo entrevista de emprego).

Poucos lugares oferecem bolsas integrais (cobrindo 100% dos gastos) e elas são geralmente bem concorridas. Eu consegui uma em 2015 e foi com ela que passei os 2 anos no Emirados Árabes Unidos (EAU).

Não vou me aprofundar neste tópico, mas caso se interesse por mais detalhes, comente aqui embaixo ou mande um e-mail e eu posso tirar suas dúvidas.

O ponto principal é que bolsas de estudo são bem concorridas, então exigem diferenciais para serem concedidas (inclusão social, altas notas, faculdade de ponta, nível de inglês, etc.) e, assim como a procura por emprego, necessitam de perseverança para se conseguir uma. Ou seja, tentar, tentar e tentar.

Língua

Alguns intercâmbios têm o objetivo de ajudar a melhorar o inglês dos seus inscritos. Geralmente, são um mix entre uma experiência no exterior (viagem, amigos e aventuras) e aulas de inglês com nativos.

Esses programas geralmente tem duração de 1 a 3 meses e são pacotes fechados (escola, moradia, cidade são definidas antes da viagem).

Não posso comentar muito sobre este tipo de intercâmbio, mas conheço pessoas que foram e adoraram assim como pessoas que não gostaram tanto.

A principal reclamação é o excesso de brasileiros nas viagens. Afinal, você estará indo com diversos outros brasileiros, então a tentação de ficar cercado de pessoas que falam a mesma língua é alta.

Meu conselho é ponderar os custos e sempre comparar com uma viagem solo para o mesmo país. Muitas vezes em um mochilão morando em um hostel sozinho você consegue interagir mais com outras culturas e ter aventuras tão legais quanto programas fechados.

Fiz muitos amigos em viagens solo pela Europa e Ásia enquanto estava no meu mestrado. E com relação aos cursos de inglês, acho que existem meios mais acessíveis de se dominar a língua.

Para quem vai para uma pós-graduação como um mestrado, o nível de inglês avançado é muitas vezes uma exigência. Geralmente, é necessário mostrar notas de testes de inglês como TOEFL e IELTS.

Estes testes exigem um conhecimento avançado (não fluente) da língua e muita prática sobre os testes.

Eu tinha um inglês mediano (conseguia ler e ouvir algumas expressões, mas nada fluente) e em três meses de dedicação integral – na época larguei o trabalho para me dedicar aos estudos – consegui me preparar para o TOEFL e tirei uma nota alta (110/120 pontos) e que foi um diferencial na hora de conseguir minha bolsa.

Também não vou entrar muito em detalhes aqui, mas se quiser alguma dica comente aqui embaixo ou mande um e-mail.

A única dica que vou deixar aqui é:

TOEFL assim como vestibular não avalia sua habilidade em inglês, ele avalia sua habilidade em fazer o TOEFL. E são coisas bem diferentes. Eu tirei uma nota alta com um inglês bem mediano e não fluente apenas porque foquei em destrinchar a prova.

Custo de oportunidade – vale a pena ou não?

Por fim, vale a pena fazer um intercâmbio ou não?

O ponto mais importante é ponderar o custo de oportunidade. Ou seja, quais são os benefícios em se fazer um intercâmbio agora e o que estaríamos deixando de lado caso fizéssemos.

Em termos de benefícios, podemos separar em dois tipos: pessoal e financeiro.

O benefício pessoal é a experiência de vida. É conhecer uma outra cultura. Para muitos isso não é novidade e/ou não é algo que brilha os olhos. Para outros pode ser um grande sonho. Logo, fica a critério de cada um ponderar isso.

Minha sugestão: se você quer muito fazer, faça! Mas avalie outras opções como mochilão ou mesmo alugar um AirBnB por um mês em um país e viver lá e veja se elas não te trazem a mesma experiência.

No lado dos benefícios financeiros, alguns intercâmbios tem o objetivo de ajudar as pessoas a conseguir melhores oportunidades de emprego. E isso geralmente vem em três aspectos:

Mudança de carreira

Fazer um mestrado como forma de mudar de carreira é um tanto quanto comum. Pessoas começam a trabalhar em uma determinada área como desenvolvimento de software ou negócios e sentem a necessidade de se aprofundar em conhecimentos teóricos naquela área.

Neste ponto, temos que ficar atentos ao custo de oportunidade. Se você for para uma pós de um ou dois anos, quais oportunidades estaria perdendo em se avançar na carreira?

Muitas vezes a melhor alternativa é dar um passo para trás na carreira entrando em uma vaga mais inicial em uma outra área e dali utilizar suas qualidades para subir rápido do que simplesmente pausar tudo para estudar.

Certas áreas estão em mudança constante. Estar dentro dela e ter uma boa rede de contatos (Networking) é as vezes mais importantes que um diploma.

Conheço pessoas formadas em meio ambiente que são UX Designers para empresas de tecnologia e simplesmente migraram através de experiencias no trabalho, mentores e cursos online. E muito trabalho duro também.

Networking

Amigos feitos em um intercâmbio podem te abrir portas para o mundo. Foto por Naassom Azevedo

Talvez esse seja o ponto mais relevante ao se fazer um intercâmbio: a rede de contatos. Se você busca mudar-se para o exterior em definitivo, criar seus filhos em outro país ou mesmo trabalhar para a sua empresa dos sonhos, um MBA ou graduação no exterior podem te abrir várias portas.

MBAs em universidades de ponta são conhecidos por serem pontos de encontro entre pessoas com desejos e ambições similares na carreira. A oportunidade é conhecer uma gerente que poderá se tornar CEO de uma grande multinacional. Ou uma professora que é referência na área. Ou montar aquela startup com os amigos da faculdade no Vale do Silício.

Existem vários casos de pessoas que foram para essas experiências e voltaram com tamanha bagagem de contatos que as permitiram criar grandes empresas no Brasil. Gabriel Braga (CEO da QuintoAndar) é um dos muitos exemplos de pessoas que fizeram MBA em Stanford e voltaram para criar empresas gigantes no Brasil.

Qualificação profissional

Muitos vão em busca do tão sonhado diploma de pós-graduação. Aquele “selo de qualidade” que irá abrir portas. Acredito que este ponto esteja bastante conectado ao anterior. O diploma em si não abre portas, mas as pessoas que você conhece ao longo da vida sim.

A não ser que sua carreira exija um diploma específico, por exemplo um mestrado ou doutorado em uma área que poucos tem qualificação e só seria possível no exterior, acredito que o diploma não irá ser tão valioso quanto a rede de contatos e experiências vividas.

Tendo isso em mente conseguimos avaliar o intercâmbio e qual o retorno que podemos esperar.

Em resumo, se o retorno financeiro for baixo, pense em fazer um mochilão de um ou dois meses. Seja morando em um hostel, ou alugando um apartamento mensalmente. Se o retorno financeiro for alto, pense em ir para o intercâmbio. E lembre-se que rede de contatos é sim retorno financeiro.

E o emprego como fica?

Se você for em um intercâmbio de um ano poucas empresas iriam te manter de qualquer forma.

E o currículo como fica?

Em qualquer entrevista de emprego, passar um tempo fora desenvolvendo habilidades com cursos online ou trabalho voluntário, ou ainda visitando empresas da área irá ser visto como um adicional incrível! Não se deixe levar pela média.

“Pior do que não terminar uma viagem é nunca partir”

Amyr Klink, explorador brasileiro

Na média, ficar sem trabalhar por um determinado tempo pode ser visto com maus olhos se – e somente se – este tempo não ter te agregado em nada. E pode ter certeza que 1-3 meses em um outro país vai te trazer muitas boas experiências.

Conclusão

De uma forma ou outra, viajar é sempre uma experiência que traz valor. Foto por jeshoots.

Não existe uma formula mágica. Cada um sabe o quanto um intercâmbio vale e quanto está disposto a investir neste tipo de experiência.

No entanto, temos alguns pontos que são importantes de se levar em conta: custo de oportunidade – será que agora é a melhor hora de fazer intercâmbio? Será que não existe uma outra opção que trará os mesmos benefícios?

Em uma situação de mudança de carreira talvez o intercâmbio pareça a opção mais óbvia, mas muitas vezes não é a que trará maior retorno financeiro. Uma rede de contatos mais rica pode ser considerada um retorno financeiro, então devemos sempre colocar na balança o que poderemos tirar deste intercâmbio.

Talvez uma viagem sozinha ou mesmo um cargo mais inicial na nova área por um ou dois anos tenha um custo menor do que um intercâmbio com intermediários.

Existe um caminho para qualquer um. Basta avaliar as melhores opções e saber que estas opções estarão sempre mudando. Eu jamais tinha pensado que conseguiria morar dois anos no exterior quem diria em um país tão exótico quanto os Emirados Árabes.

E foi numa dessas chances que eu arrisquei um pouco (meu estágio) para ter um retorno absurdo (histórias e amigos para uma vida). Essa estratégia se chama Estratégia Barbell e pode te ajudar a balancear os riscos das escolhas.

No final do dia, o intercâmbio é mais uma de muitas escolhas que devemos fazer. Se ele não vier agora na forma de uma bolsa de estudos, ou porque o dólar disparou, não se preocupe, basta estar aberto a tais opções que elas surgirão em outras formas.

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