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Resenha do livro “Como o Google Funciona” de Eric Schmidt e Jonathan Rosenberg

Eric Schmidt e Jonathan Rosenberg contam neste livro os detalhes de suas carreiras de mais de 10 anos liderando a gigante de tecnologia chamada Google.

Os bastidores da start-up que se transformou em uma gigante da tecnologia

AutorEric Schmidt e Jonathan Rosenberg
OrigemEUA
Ano2014
Nota no GoodReads4.06/5.00
Nota do Aprendiz Moderno8.5/10
Ficha Técnica

O livro “Como o Google Funciona” foi escrito por Eric Schmidt – CEO do Google de 2001 a 2011 – e Jonathan Rosenberg – VP de produtos do Google entre 2002 a 2011. Ambos foram peças-chave na construção desta empresa que hoje é uma gigante da tecnolgia. Neste livro, eles compartilham detalhes de backstage com os leitores junto com histórias dos primeiros anos de vida desta empresa.

Desde a invasão da sala do CEO por engenheiros que serraram as mesas até a decisão de sair da China (sim, existiu um google.cn na terra do Baidu).

Os autores descrevem os pilares do Google e suas interações com os famosos Sergey Brin e Larry Page – fundadores do Google – durante os mais de 10 anos que passaram na instituição transformando-a desde uma startup com poucos anos de existência até uma das maiores empresas de tecnologia do mundo.

De acordo com Eric, a nova era da tecnologia será puxada pela alta conectividade e baixo custo de poder computacional. Hoje em dia, qualquer um em boa parte do mundo pode alugar uma máquina na nuvem por alguns centavos de dólar por hora e rodar sua nova empresa.

Portanto, estamos vivendo uma nova revolução tecnológica que irá trazer grandes avanços nos próximos anos como amplo uso de inteligência artificial, carros autônomos, internet das coisas, etc.

No entanto, tudo que é comum hoje em dia uma vez foi novidade. O Google foi uma grande transformação nas empresas de tecnologia da época pelo seu jeito de pensar – usuário em primeiro lugar e obsessão pelo produto perfeito ­– e, também, por só contratar os melhores.

Um livro excelente e leitura mandatória para qualquer um que quer começar sua empresa na área de tecnolgia ou trabalhar como gestor de um time incrível. O segredo? Três passos: 1) Tenha uma visão incrível; 2)Contrate pessoas do tipo “criativo inteligente”; 3) Deixe-as trabalhar em paz.

Abaixo listo meu top 5 pontos do livro que com certeza levarei para minha carreira.

1. As “criativas inteligentes”

O guru da administração Peter Drucker cunhou em 1959 o termo “trabalhadores do conhecimento” (Knowledge Workers) para definir funcionários de uma empresa que trabalham com informação, ou seja, ganham dinheiro “pensando”. E esse termo se aplica para eu e todos os que trabalham na frente de um computador, a gente não está numa fábrica botando a “mão na massa” mas sim pensando e manipulando dados.

Nas décadas passadas, grandes empresas investiram em seus “trabalhadores do conhecimento” promovendo-os em carreiras específicas com tarefas específicas e pouca amplitude de conhecimento, você seria uma gerente de uma área e seria promovida a cada 2-3 anos passando a carreira toda na mesma empresa antes de se aposentar.

Agora tente advinhar como o Google funciona?

Criativos Inteligentes é o termo dado por Eric Schmidt para os funcionários do Google que possuem características bem especiais inclusive a proatividade para criar soluções. Foto por Ventures.

Segundo os autores, o Google contrata talentos e os liberta para fazer praticamente o que bem entenderem utilizando habilidades técnicas e comerciais sem tarefas específicas em boa parte do tempo. Eles não têm medo de correrem riscos e muito menos são punidos por iniciativas arriscadas que fracassam.

E essa é a definição de uma pessoa “criativa inteligente” (smart creative) que vai um pouco além:

  • Não trabalham em tarefas específicas – possuem liberdade para criar.
  • Correm riscos controlados e muitas vezes fracassam.
  • Não ficam calados quando discordam de algo.
  • Ficam entediados com muita facilidade (trocam muito de emprego).
  • São multidimensionais – combinam profundo conhecimento técnico com habilidades comerciais e criativas (adoram aprender).

O criativo inteligente é o perfil ideal de contratação do Google e empresa foca exclusivamente em contratar os melhores neste perfil com uma técnica de contratação invejável.

Uma criativa inteligente possui qualificações que começam pelo conhecimento técnico passando pela inovação, mas também inclui muito trabalho duro. Ela é uma pessoa determinada a ter sucesso e sabe que isso não acontece no horário comercial.

Obviamente, pessoas com maiores ambições irão se dedicar mais tempo à carreira, porém, segundo os autores a empresa sempre levou o balanço entre vida e trabalho à sério (work life balance).

Porém o Google não fica exigindo que os funcionarios saiam mais cedo ou muito menos que fiquem até mais tarde. Eles se certificam que os funcionarios sejam responsáveis por suas tarefas e que tenham liberdade para focar no que deve ser focado: trazer valor aos usuários.

Segundo Marissa Mayer, CEO do Yahoo, ex-googler, o burnout não é causado pelo excesso de trabalho mas sim pelo ressentimento de ter que abrir mão do que importa para as pessoas. Dar a responsabilidade e acreditar nos seus funcionários é um ponto chave para atingir este balanço.

E um dos princípios do Google é não dar ouvido aos hippos (hipopótamos, em inglês). Que é na verdade um acrônimo para Highest-Paid Person’s Opinion, ou seja a opinião da pessoa com maior salário. Ou seja, não importa quem sugeriu a ideia o que importa é a qualidade da mesma.

Por isso é tão importnte contratar as pessoas certas.

2. Contratar é a habilidade mais importante de um gestor

Uma das partes que mais me chamou a atenção é como a empresa possui um processo de contratação extremamente detalhado. Para Eric e Jonathan, contratação é a habilidade mais importante de um gestor e não algo que entregamos apenas na mão da área de Recursos Humanos (RH). Todos (sim, todos) os funcionários do Google tem responsabilidade na hora de contratar. Os próprios times entrevistam os candiatos e todos são educados no processo de contratação do Google que envolve entre outras coisas:

  • Um roteiro muito bem definido para dar o feedback da entrevista ao RH.
  • Um painel de entrevistadores que são eleitos por suas ótimas habilidade em entrevistar (sim, a habilidade em entrevistar e contratar é um diferencial dentro da empresa para promoções)
  • Entrevistas de apenas 30min ­– desta forma o entrevistador vai direto ao assunto e também consegue entrevistar mais candidatos.

Eles acreditam no efeito rebanho no qual os novos criativos inteligente que ingressam no Google não vem apenas atraídos pelos bons salários e benefícios, mas sim por que ali irão trabalhar com pessoas incríveis ou “fora de série“.

Para o Google, saber contratar é a habilidade mais importante de um gestor. Foto por Christina.

No começo da empresa, Eric conta uma história de como Jonathan deixava na sua mesa uma pilha de currículos de pessoas do seu time. Sempre que iria contratar alguém e não estava confiante se a pessoa iria aceitar – vale lembrar que nem sempre o Google foi uma empresa gigante e popular – ele mostrava os currículos do time para a pessoa dizendo: “estes são os currículos das pessoas do meu time com que você irá trabalhar”.

Muitas vezes isso era o bastante para convencê-los.

Trabalhar com uma equipe extremamente qualificada é sempre empolgante e mais ainda quando esta equipe tem praticamente uma carta branca para criar. E falando em criação

3. A bagunça é uma virtude

No Google, os funcionários contam com acesso a todos os sistemas e softwares de ponta que a empresa possui e, é claro, alguns mimos como uma praça de alimentação gratuita no GooglePlex (sede da empresa em Mountain View, Califórnia), quadras de esportes, academias e atividades que fazem a sede se parecer mais como um campus de universidade.

Eu em visita ao GooglePlex (sede do Google) em Mountain View, Califórina (EUA). Os fundadores criaram a sede para se parecer com um campus de uma universidade.

No entanto, o ponto mais interessante é que os visitantes da sede não podem ir na parte onde ficam os escritórios porque, dentre outras razões, a área onde ficam os funcionários é uma tremenda bagunça.

E foi feita de propósito.

Os funcionários ficam extremamente próximos uns dos outros. Segundo Eric, se você consegue esticar o braço no seu escritório sem esbarrar em um colega de trabalho, você possui muito mais espaço que um goggler.

O escritório é feito desta forma pois os fundadores acreditam que é da bagunça que saem as melhores ideias. A sede possui todos esses benefícios pois a liderança da empresa sempre acreditou que as interações entre funcionários são extremamente importantes. Pricipalmente, aquelas que ocorrem espontaneamente na hora do almoço, no café, ou durante alguma atividade.

Atualmente, os funcionários estão trabalhando de casa por causa da quarentena do COVID-19 e irão assim até o fim de 2020. Porém, a empresa foi construída de forma a criar um ambiente que motive os funcionários a irem para o escritório com almoço grátis, palestras, cursos, massagens e inúmeras atividades.

A ideia da liderança era promover esses encontros onde funcionários de outros times iriam ouvir conversas e a partir desses encontros inesperados novas ideias surgiriam. Ou seja, por mais que o Google seja uma empresa aberta, eles esperam que os funcionarios não façam muito home office. Afinal, são desses encontros entre pessoas de diversos times que novas ideais e produtos surgiram.

Vale lembrar que produtos como o Google Suggest (quando você digita algo no Google e ele autocompleta) e Gmail surgiram de ideias e conversas entre funcionários.

A empresa também se organiza em torno das pessoas que causam maior impacto e de maneira indiferente à posição. Eles não focam tanto em experiência quanto focam em desempenho e entusiasmo. Não é o funcionário com mais anos de carreira que assume a liderança, mas sim aquele que entrega maior impacto independente da idade/anos de casa.

Durante o livro os autores contam diversas histórias sobre como funcionários retrucaram decisões da liderança ou tomaram iniciativas próprias – que as vezes não eram tão bem vistas – por simplesmente acreditarem que aquilo era o melhor para os seus usuários.

E no nível mais sênior, onde os líderes da empresa se encontram, eles sempre buscaram colocar pessoas que trabalham com produtos. Eles realmente são obssecados por entregaram produtos fantásticos e acreditam que esse é a melhor maneira para continuar no topo.

E como VP de produtos, Jonathan por muitos anos ocupava o cargo mais relevante nesta área. Mas nem sempre seu trabalho era bem visto.

4. Seja um bom roteador

Uma vez Jonathan, VP de produtos do Google, recebeu um feedback de um engenheiro dizendo que ele era um “roteador muito caro” pois ele respondia e encaminhava e-mails extremamente rápido dando a entender que ele passava “tempo demais” lendo e-mails ao invés de “trabalhar”.

O que poderia ser um feedback negativo na verdade deixou Jonathan muito feliz. Afinal, ele acredita que o papel de um bom gestor é trazer visibilidade aos seus times.

O objetivo da liderança do Google é otimizar o fluxo de informações dentro da empresa. Ao contrário de empresas mais tradicionais onde as informações são cascadeadas dos diretores para os gerentes e por fim para os funcionários mais novos, os googlers tem ampla visibilidade no que acontece na empresa.

Por exemplo, isso acontecia através das reuniões de sexta chamadas de TGIF (Thank God It’s Friday – Graças a Deus é Sexta) onde a empresa inteira se reunia e votava em perguntas para serem endereçadas por Eric e seu time.

TGIF (Thank God It’s Friday) é uma das reuniões mais populares no Google onde todos os funcionários se reunem para discutir e perguntar abertamente aos líderes da empresas. Foto por Antenna.

E mesmo reuniões do mais altíssimo nível entre Eric (CEO na época) e os conselheiros da empresa eram compartilhadas praticamente na íntegra entre os funcionários da empresa. Algo que dificilmente acontece em empresas de grande porte.

Quanto mais nos aprofundamos na cultura do Google de ser uma empresa aberta tanto no seu código quanto na sua filosofia, mais percebemos a importância de se contratar pessoas excelentes em termos de ética de trabalho e identificação com a empresa.

5. Inovação combinatória e o triciclo do Street View

No livro, Eric menciona o termo inovação combinatória que foi cunhado pelo economista-chefe do Google chamado Hal Varian. Este termo se refere ao fato de que no Século da Internet, existe uma grande disponibilidade de tecnolgias que podem ser combinadas para gerarem mais valor em diversas indústrias.

Existem diversas possibilidades que ainda estão invisíveis às pessoas. Vale lembrar que a internet foi inicialmente criada para cientistas compartilharem pesquisa e era simplesmente vista como mais uma ferramenta ao invés da revolução que causou. Ou mesmo o laser que foi uma tecnologia criada pelo Bell Labs nos anos 60 e deixou seus criadores tão desapontados que eles quase não a patentearam.

Hoje em dia, temos amplo poder computacional a um custo baratíssimo e softwares em código aberto, ou seja, disponíveis gratuitamente (inclusive de empresas como o Google). Isso permite a qualquer um criar uma nova solução que impactará milhares ou milhões de pessoas.

Sabendo disto, o Google permite que seus funcionários passem até 20% do tempo de trabalho dedicados a um projeto que gostariam sem necessariamente estar relacionado ao que estão trabalhando.

E pode ser qualquer coisa mesmo.

A empresa acredita que liberar tempo para os funcionários criarem algo novo com as ferramentas que possuem é fundamental para continuar inovando.

E desses projetinhos de 20% do tempo, surgiram grandes inovações como o Gmail, o SafeSearch e a busca por imagens (sim, você pode arrastar uma imagem para a barra de pesquisa do Google e ele busca imagens semelhantes para você).

Triciclo do Google utilizado para mapear ruas estreitas pelo mundo. Um projeto desenvolvido por um funcionário durante seu “tempo livre”. Fonte: Wikipédia.

Um exemplo curioso é o triciclo do Street View. Um dos engenheiros do Google, em uma viagem de férias para a Espanha notou quão estreitas algumas vielas eram e quantas informações interessantes teriam para os usuários do Street View. Quando retornou das férias, decidiu dedicar 20% do seu tempo para construir um triciclo que poderia navegar nestas vielas.

O resultado foi excelente e acabou sendo adotado como solução até hoje.

Essa é uma solução super elegante para um problema que aflinge a maioria das empresas de grande porte: chega um determinado momento onde a inovação começa a conflitar com o negócio principal da empresa. Muitas vezes, a inovação simplesmente acaba morrendo.

Porém no Google, a inovação é presente no dia a dia de todos os funcionários.

Conclusão

O slogan do Google é “não seja mal” (Don’t be evil ­­em inglês). Com essas três palavras eles empoderam todos os funcionários para que eles possam para a “linha de produção” de softwares a qualquer instante. Segundo os autores, o objetivo é sim criar uma empresa lucrativa, mas mais que isso é criar produtos que irão ajudar as pessoas.

A obsessão por produtos de primeira é o que move a empresa. Mais do que retorno financeiro. Afinal os fundadores já diziam desde o começo que ao fazer um produto muito melhor que a concorrência, o dinheiro iria vir de alguma forma.

Eles adoram problemas difíceis pois sabem que seus funcionários criativos inteligentes são movidos a desafios. E, é claro, fornecem as melhores ferramentas disponíveis no mercado para que eles possam resolver esses desafios. Além é claro de toneladas de dados de diversos tipos.

E por fim, pensam grande. Mesmo os autores do livro imaginam que alguém com todas essas ideias em uma garagem, ou laboratório ou escritório em algum canto do mundo pode estar construíndo a próxima empresa que irá destronar o Google. E eles acham isso algo inspirador.

E você? Gostaria de trabalhar em uma empresa como o Google?

Sobre os autores

Eric Schmidt. Fonte: Wikipédia.

Eric Schmidt, 65, foi CEO do Google entre os anos de 2001 e 2011 contratado pelos próprios fundadores da empresa. Anteriormente, trabalhava em outra empresa de tecnologia chamada Novell. Possui doutorado em ciência de computação pela Universidade da Califórnia em Berkeley. Sua fortuna é estimada em 11 bilhões de dólares.

Jonathan Rosenberg. Fonte: Wikipédia.

Jonathan Rosenberg, 59, foi VP de produtos do Google entre os anos de 2002 e 2011 sendo contratado pelo próprio Larry Page (fundador do Google). Trabalhou ao lado dos fundadores e de Eric Schmidt durante quase 10 anos onde ajudou a elevar o patamar do Google de uma start-up promissora a uma das maiores empresas do mundo. Possui MBA pela universidade de Chicago e antes de trabalhar no Google, trabalhou em outra empresa de tecnologia chamada @Home.

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