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Mentalidade não é mindset

Compre isso, compre aquilo. Você ainda não tem esse produto? Você já ouviu falar daquele novo relógio, celular, pote, prateleira, o que for, que você precisava muito e só agora ficou sabendo?

Compre isso, compre aquilo. Você ainda não tem esse produto? Você já ouviu falar daquele novo relógio, celular, pote, prateleira, o que for, que você precisava muito e só agora ficou sabendo? E mentoria, e coaching, e tudo aquilo mais que você não precisa, mas que agora, como todo mundo está fazendo, passou a precisar? Você, de fato, precisa disso tudo?

Essa postagem é para falar que você não precisa disso tudo. Talvez você precise de uma coisa ou outra, mas não disso tudo. Estou aqui para falar te convencer de três coisas:  que a vida é mais simples que parece, que você não deve acreditar em tudo que ouve e que mentalidade não é mindset.

Anglicismos do dia-a-dia

O primeiro motivo pelo qual mentalidade não é mindset, pelo menos não no Brasil, é porque você não precisa usar termos em inglês para parecer cool. Veja bem, não estou falando que a tradução de mindset deve ser diferente de “mentalidade”. Até acredito que “mindset” signifique algo um pouco superior a “mentalidade”, já que “set” traz a ideia de um conjunto mental, enquanto “mentalidade” carrega mais a ideia de um estado mental. Porém, os termos seriam suficientemente próximos para que eu me desse por satisfeito pela tradução.

É certo que no Brasil nós falamos português, o nosso famoso vernáculo. O vernáculo é incrível: ele possui uma combinação incrível de palavras, ele foi amplamente utilizado por gênios da literatura, como Cecília Meireles e Clarice Lispector, ele é capaz de representar uma quantidade infindável de fenômenos da vida. O português é muito capaz de representar palavras obscuras do nosso dia-a-dia, como “call”, “meeting”, até as mais rebuscada como “tête-à-tête”, “en passant” e os latinismos de “ad hoc” e “erga omnes”.

Não é nada incomum também nos depararmos com más traduções e confusões com falsos cognatos. Relembro ter recebido, recentemente, um formulário elaborado por experts em proteção de dados que seria aplicado em um grande projeto. O formulário estava traduzido para “Formulário sobre tratamento de assunto de dados”. Fiquei refletindo o que seria assunto de dados. No final das contas, era só uma tradução errada de “data subject”, que, em linguagem técnica, significa “titular de dados” e não “assunto de dados”.

Existe um certo mérito em procurar as palavras exatas para expressar uma emoção e um sentimento. Estar angustiado e se sentir ansioso não são a mesma coisa, assim como confiança e cumplicidade não se referem a exatamente a mesma coisa. Contudo, fora das situações em que você deseja expressar algo em específico, é natural que você busque utilizar a nossa querida língua portuguesa para expressar o que você deseje.

Ocorre que este é apenas um argumento introdutório. Há um argumento muito mais forte para tomar cuidado com o que se houve, especialmente em idioma estrangeiro.

Palavras escondem e iluminam

Palavras escondem e iluminam

Quando eu leio literatura jurídica, eu espero aprender lições jurídicas. Não era outra a minha expectativa quando, em 2016, eu estava lendo um texto produzido sobre arbitragem, um dos meus grandes interesses até então. Nesse texto, o Professor Jan Paulsson, da Universidade de Miami, empreende um esforço incrível para diferenciar dois conceitos relativamente similares na arbitragem: jurisdição e admissibilidade. (íntegra do texto aqui)

O esforço parece trivial para alguém que não entende a importância da distinção. Não cabe a nós, nesse espaço, explicitar os fundamentos exatos pelos quais jurisdição difere de admissibilidade, mas podemos apontar que a diferença está nos efeitos diversos de uma decisão de jurisdição e outra de admissibilidade. Foram 17 páginas dedicadas a diferenciar estes dois conceitos.

Em um trecho notório, o Professor Paulsson apresentou a seguinte construção (traduzido livremente do inglês):

É preciso se preocupar com a linguagem. A linguagem libera; a linguagem aprisiona. Palavras iluminam; palavras escondem

O principal insumo do jurista é a palavra. O jurista deve ser o mestre da palavra. Quando ele quer explicar, ele usa linguagem direta e palavras simples. Se deseja confundir, ele usa linguagem complicada e palavras difíceis. Caso pretenda construir um texto ambíguo, ele redige sentenças longas, desconexas, subordina orações a orações subordinadas, entre outros. 

A pena é mais forte que a espada justamente porque ela permite escrevermos a realidade como nós desejamos. Nas entrelinhas, o Professor Paulsson deixa transparecer este argumento: palavras importam.

Más práticas (ou como não ser enganado rotineiramente)

É recorrente que as pessoas utilizem certos termos justamente para confundir. Lembro de um ocorrido há poucas semanas em que recebemos uma proposta muito bem redigida, muito robusta, sem nenhum termo em inglês, com uma exceção: “transaction fees”, que estavam fixadas a 3,75%. Absolutamente nenhuma explicação em relação a este termo e ele era o único em inglês, escondido na última linha da tabela.

O termo significava que, de tudo que fosse faturado com o uso daquele produto, 3,75% seria da empresa contratada. Ora, se eu quero ceder quase 4% do que eu produzo, eu prefiro te chamar para ser meu sócio, não é mesmo?

Quando chamados a esclarecer, os representantes da outra empresa ficaram até sem graça. Não pudemos deixar de apontar que isso não se faz e que o erro era um pouco amador, já que, se eles quisessem mesmo enrolar os consumidores, seria mais eficientes colocar outros termos em inglês ou mudar o nome desta taxa. Obviamente, não foi feito negócio.

Na vida, se você não presta atenção, você pode ser enganado.

Recordo de outro acontecimento de alguns meses atrás, no qual eu recebi um troco incorreto em um festival de música. Eu dei uma nota de 50, pedi para carregar 20 reais, o caixa devolveu o cartão e disse obrigado. Eu pedi o meu troco, ele disse que tinha carregado 50 reais. Não tinha barulho algum. Quando eu pedi para ele devolver o dinheiro, ele disse que era impossível. É claro que eu pedi auxílio ao gerente que, milagrosamente, devolveu o dinheiro imediatamente. Nada mais justo.

Outra situação recente ocorreu em uma escola de idiomas. Eu decidi estudar francês de novo e busquei instituições renomadas para tanto. Marquei um teste de nível no meu horário de almoço e fui. O teste foi ótimo e me retornou o meu nível estimado de habilidade na língua. Satisfeito e preparado para fechar contrato com a escola, eu conversei com a secretária. 

Mas, como eu estava com pressa (já tinha passado em muito o horário de almoço), eu perguntei os valores, turmas e disse que decidiria depois. Fui informado de tudo, mas, prestes a sair, a secretária informou que eu deveria pagar 50 reais já que eu não ia fechar. Ué, eles não tinham avisado nada; se tivessem me falado, talvez eu até pagasse ou fechasse, mas, lembre-se, o combinado não é caro. Eu protestei e imediatamente a secretária voltou atrás. Se eu não reclamasse, eu estaria 50 reais mais pobre.

Essas histórias ilustram um fato único: é preciso sempre prestar atenção. Contudo, como elas se relacionam com o título do artigo?

Não melhore o seu mindset

O fio condutor de tudo que apresentamos até agora é o seguinte: se você deixar, as pessoas vão te vender coisas que você não precisa. Se você não falar nada, você vai pagar mais caro. Se você não perguntar em relação aos detalhes, você vai pagar um preço muito caro no futuro.

A conjugação destes eventos com reflexões recentes me levou ao pensamento estoico que me encantou por anos e que está sempre presente aqui no Aprendiz Moderno. É o pensamento de que as coisas são mais simples que parecem.

O mundo estoico é um mundo ordenado, que faz sentido e no qual as suas atitudes importam e você pode decidir melhorar e se aprimorar, potencialmente causando um impacto positivo no mundo. Para mim, essa é a mentalidade adequada. Agora, se alguém deseja te vender cursos imperdíveis de aprimoramento pessoal, 10 dicas que você não viu anterior, te falar que você precisa se inscrever agora ou vai perder a chance da sua vida… Lembre que é muito provável que você não precisa de nada disso.

Muita gente ganhou e ganha a vida vendendo para vocês coisas que você não precisa. Passam o tempo todo te convencendo de coisas que ou não estão certas, ou são só uma questão de perspectiva.

Você, no seu anseio de fazer o mundo um lugar melhor, busca aprimorar o seu mindset, trabalhar o seu teamwork, focar no seu empoderamento profissional, entre outros. 

Não é que estas coisas estejam erradas e não é que todo coaching e auxílios que orientem sejam feitas estas coisas estejam incorretos. É que elas estão aí a milênios e você não precisa pagar por elas. Faça coisas boas, respeite os outros, elogie as pessoas, entre outras coisas, são de conhecimento comum (e prática incomum). Eu recomendo um livro bastante inspirador sobre coisas simples, chamado “Pequeno manual de instruções para a vida” . Li e reli inúmeras vezes.

Se você chegou até esse ponto e está dando uma oportunidade para o argumento de que as coisas podem ser mais simples do que a sociedade faz parecer, talvez esteja se perguntando então: por quê as coisas são mais simples? 

A simplicidade da vida

Eu gosto de pesquisar e estudar fotos históricas. Uma das que mais me impressionou possui um sórdido nome e se chama pálido ponto azul. A imagem é essa:

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/73/Pale_Blue_Dot.png/290px-Pale_Blue_Dot.png
Pálido Ponto Azul. Fonte: Wikipédia

Alguns diriam que essa foto é um pouco parada, monótona. Não dê atenção a estas pessoas. Elas enxergam um fundo embaçado, mas não percebem o mais importante: aquele ponto azul. Veja de novo a imagem.

Aquele ponto é a Terra, vista da Voyager 1, em 1990. Esta foto não seria tirada se não fosse a insistência de Carl Sagan em relação à equipe da NASA para que virasse as lentes da câmera para trás, uma última vez, e para que apontassem para a Terra.

Essa foto não teria valor científico, já que não seria possível captar nenhum detalhe significativo. Contudo, ela possui um fortíssimo valor simbólico.

Pense por um instante. Tudo que já aconteceu e que vai acontecer na Terra se passou e se passará naquele ponto. Todos que você conhece, todos que você ama ou amou, tudo que é mais caro para você, tudo que existe na sua vida, está localizado naquele ponto azul.

E isso é só parte da verdade: falar que a Terra é um ponto no Universo é subestimar o tamanho do Universo. A Terra é muito menos do que um ponto no Universo.

Isso também mostra o porquê devemos preservar a Terra. Aquele ponto minúsculo no Universo, cercado por poeira espacial, distâncias (literalmente) astronômicas, localizado numa das pouquíssimas áreas capazes de abrir vida, é a nossa única casa. Se ela não puder mais nos abrigar, não há para onde irmos.

De volta ao ponto principal, assim como a verdade é uma questão de perspectivas, a importância das coisas também o é. Imagine que, infelizmente, você bateu o seu carro em um carro parado, sem que você tenha se machucado. Aquele evento será importante naquele dia e nas semanas seguintes.

Talvez, a depender da situação, essa batida será importante ainda daqui há 3 ou 5 anos. Contudo, dificilmente ela vai ser importante por mais tempo do que isso.

Imagine, então, que esta batida não será mais importante na sua vida daqui há 3 meses. Vale a pena se preocupar excessivamente, se estressar, tratar mal os outros, entre outros erros que as pessoas cometem, por conta de algo que daqui há pouco irá passar?

O único limite da vida é a morte. Toda as outras coisas, repito, todas as outras coisas passará. Isto também passará.

Saber disso permite você colocar as coisas em perspectiva. Eu tive um mal dia no trabalho, mas daqui há 10 dias eu já terei esquecido; vale a pena ficar tão estressado e triste?

Aquele pequeno ditado “preocupe-se com o que importa” faz algum sentido para mim.  Eu alteraria ele um pouco, contudo, para “preocupe-se com o que irá importar na sua vida”. Se o evento for esquecido em alguns dias, não vale a pena se preocupar tanto com ele.

Assim, colocar as coisas em perspectiva permite viver uma vida simples. Saber que, no gigantesco espectro das coisas, somos habitantes de um pequeno ponto azul pode permitir a você viver com mais plenitude o (pouco) que temos aqui na Terra.

Gratidão para com o que é simples

Terminamos a nossa reflexão, que começou com mentalidade e mindset, com um breve trecho do livro Meditações, de Marcus Aurelius, muito mencionado (e com muita justiça) por estas bandas.

Anotou em seu diário o Imperador Marcus Aurelius o seguinte, que apresentamos em tradução livre (p. 128):

Não se esqueça de quantos médicos morreram, depois de terem levantado a sobrancelha sobre vários leitos de morte. Quantos astrólogos tiveram o mesmo fim, após pomposas previsões sobre a vida dos outros. Quantos filósofos, após infindáveis discussões sobre morte e imortalidade. Quantos guerreiros, após infligirem milhares de mortes. Quantos tiranos, após abusarem o poder da vida e da morte de forma atroz, como se eles mesmos fossem imortais.

Quantas cidades encontram o seu fim: Helike, Pompeia, Herculano e incontáveis outras.

E todos que você conhece, um após o outro [encontrarão o seu fim]. Aquele que fez o enterro, e que então foi enterrado, e aquele que o enterrou – todos [encontrarão o seu fim] em um curto espaço de tempo.

Em suma, saiba disso: as vidas humanas são breves e triviais. Ontem, sêmen; amanhã, cinzas.

Viva a breve vida como a natureza requer. Faça isso sem reclamação. Assim como a oliva que amadurece e cai. Ela cai agradecendo a árvore na qual cresceu

Não é difícil perceber que você não precisa de muita coisa que os outros fazem você pensar que precisa. Viva a vida simples. E não se esqueça: mentalidade não é mindset. Mentalidade é uma palavra linda portuguesa e merece assim permanecer.

1 comentário em “Mentalidade não é mindset

  1. O Mundo além.. o pensamento livre e a avaliação perfeita do que precisamos…tudo e quase nada!

    Curtido por 1 pessoa

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