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Resenha do livro Princípios de Ray Dalio – Parte 2

Na parte 1, da resenha eu falei sobre Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates e bilionário, e sobre seus princípios de vida. Nesta parte, vou falar sobre meu top 5 ensinamentos da parte sobre os princípios de trabalho.

Parte 2 – Princípios de Trabalho

Na parte 1 da resenha eu falei sobre Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates e bilionário, e sobre seus princípios de vida.

Nesta parte, vou falar sobre meu top 5 ensinamentos da parte sobre os princípios de trabalho. Ou seja, sobre a metodologia que Ray utilizou para tornar a Bridgewater um dos mais bem sucedidos fundos de hedge (proteção financeira) da história.

O segredo de Ray Dalio é bem simples: tenha relações de trabalho de qualidade em uma meritocracia de ideias onde sinceridade e transparência sejam as ferramentas utilizadas.

Abaixo listo um top 5 dos meus ensinamentos do livro, e pode ter certeza que deixei bastante coisa interessante de fora.

1. Meritocracia de ideias

Uma meritocracia de ideias ponderadas pela credibilidade é o melhor sistema para tomar decisões eficientes.

Ray Dalio

Ao criar a Bridgewater do zero, Ray Dalio passou pelos desafios de qualquer empresa que está começando: pouco pessoal para muito trabalho. Neste caso, ele precisava criar um ambiente no qual todos os seus funcionários pudessem contribuir para o crescimento da empresa.

Segundo ele, o melhor sistema de tomada de decisões seria um em que os pensamentos e ideias das pessoas fossem reunidos e que qualquer discordância fosse resolvida de forma produtiva e ponderada pela credibilidade das pessoas.

A meritocracia de ideais é um sistema que reúne pessoas brilhantes com pensamentos independentes e que possam tratar de qualquer discordância de maneira eficiente. Foto por Vlad Hilitanu.

Ou seja, se o assunto fosse finanças, pessoas com experiência na área teriam suas ideias sendo elevadas em termos de importância, porém não necessariamente seriam as únicas consideradas. Afinal, outras pessoas poderiam contribuir para tornar essas ideias ainda melhores.

E isso é o que ele chama de meritocracia de ideias: um sistema que reúne pessoas brilhantes com pensamentos independentes e que possam tratar de qualquer discordância de maneira eficiente. Sempre ponderando ideais pela credibilidade das pessoas.

Esse sistema evoluiu na Bridgewater por décadas e foi estudado por diversos pesquisadores organizacionais, pois o resultado é incrível.

Mas isso só foi possível de se atingir por causa de um dos princípios que Ray mais achava importante: a transparência radical entre pessoas. Afinal, se as discordâncias não fossem levadas à tona, qualquer processo para resolvê-las seria ineficaz.

2. Transparência Radical

Meritocracia de ideias = Sinceridade Radical + Transparência Radical + Processo Decisório Ponderado por Credibilidade

O autor bate bastante na tecla da transparência radical, que por sinal é um dos seus princípios de vida. Ao sermos sinceros e transparentes nós nos forçamos a três coisas:

  1. Temos que expor o que pensamos sinceramente.
  2. Conseguimos ter desacordos de maneira respeitosa com nossos colegas de trabalho e discutir potenciais soluções.
  3. Devemos criar um sistema para superar os desacordos restantes quando não atingimos um consenso.

Essas três coisas fazem com que o sistema flua de maneira mais eficiente. Ao se rodear de pessoas inteligentes que discordam de você e discutir com elas você estará elevando seu nível de entendimento sobre os desafios e a realidade como ela é.

Lembrando que o que nos torna bem sucedidos é exatamente isso: observar a realidade como ela é e não como gostaríamos que fosse.

Seja transparente e permita que todos os funcionários possam ver o que está se passando na sua empresa. Foto por Alexandre Chambon.

E isso inclui compartilhar informações de maneira aberta na empresa. Na Bridgewater Associates, muitas das reuniões da diretoria eram gravadas e compartilhadas para quem quisesse assistir. Os advogados de Ray acharam a decisão errada pois essas gravações poderiam ser usadas contra eles. Porém o próprio autor, achou que o contrário aconteceria: ao gravar todas as reuniões isso reduziria o risco de fazerem a coisa errada protegendo a empresa no longo prazo.

E ele estava certo.

Da mesma forma que o Google funciona com essa transparência um tanto quanto incomum, Ray sempre deixou claro sua intenção de nunca esconder nenhum problema dos funcionários e trabalhar junto com eles para resolvê-los.

As únicas exceções à regra eram casos de informações sensíveis como situações médicas de funcionários e algumas questões salariais que não teriam impacto significativo sobre a empresa como um todo.

De resto, tudo é amplamente compartilhado. Obviamente, esse modelo só funciona quando se tem pessoas de bom caráter na organização. Por isso é importante tratar a empresa como uma máquina que só funciona com as pessoas e a cultura correta.

3. Máquina de pessoas e cultura

Para Ray Dalio, uma empresa é uma máquina que só consegue operar com as pessoas e a cultura certas. Foto por Garett Mizunaka.

Grandes empresas têm ambas as pessoas e a cultura em nível extraordinário. Pois pessoas excelentes tem caráter excelente e estão profundamente conectadas à organização.

“Se você não liga de estar errado durante o processo que leva a estar certo, vai aprender muito.”

Ray Dalio

Não é à toa que empresas como essas investem tanto na área de recrutamento e seleção. Eric Schmidt, ex-CEO do Google, diz que a habilidade mais importante de um gestor é a contratação.

O autor faz um paralelo entre a performance das empresas no longo prazo e o processo evolutivo. Pois, há 45 anos – quando a Bridgewater Associates começou – o índice Dow Jones 30 das maiores empresas continha diversas empresas que hoje nem existem mais como General Foods, Inco, e American Can.

As empresas que “sobreviveram” passaram por um processo evolutivo na qual problemas são trazidos à tona, discutidos e resolvidos em conjunto. E para isso apenas uma cultura que permite este tipo de sinceridade e transparência irá conseguir realizar consistentemente.

Em um paralelo com relacionamentos, o autor diz que o principal teste para saber se existe uma grande parceria não é se os parceiros nunca discordam. Afinal, em toda relação saudável haverá discordâncias. O principal teste é saber se conseguem trazer suas desavenças e as resolverem de maneira saudável.

E isso inclui o próprio Ray Dalio. Em um dos exemplos do livro, ele recebe um e-mail de um dos seus funcionários reclamado sobre algumas atitudes para com uma reunião que tiveram com o cliente onde Ray fugiu do plano acertado previamente.

Em outro caso, os seus funcionários mais próximos o chamam para um jantar onde falam “umas verdades” para Ray de modo a chamar a atenção para certas atitudes grosseiras.

Algumas vezes ser sincero demais pode ser prejudicial. Mas são muito poucas para não sermos.

4. Acertando nas pessoas

Ray Dalio utilizou de métodos um tanto quanto diferentes para avaliar as pessoas. Seu processo analítico foi criticado no começo da empresa, mas as pessoas mudaram de ideia ao ver a performance que o mesmo trazia.

Além de focar muito na parte de contratações, o autor listou diversas ferramentas que utilizou para construir a sua empresa.

Dentre as várias ferramentas que Ray utilizou, abaixo listo as minhas favoritas:

Coletor de Pontos

Um aplicativo que permite que os funcionários expressem suas opiniões e vejam a dos demais em tempo real. Como se fosse um aplicativo votação ele não só mostra a votação em que os votos têm pesos iguais, mas também a votação por votos ponderados pela credibilidade de cada funcionário.

Este aplicativo é amplamente usado na Bridgewater Associates para realizar votações quando não se há um consenso. O que ocorre diversas vezes, afinal as pessoas são “obrigadas” a compartilhar suas opiniões e ouvir a do próximo.

Esta credibilidade é avaliada através de histórico (anos de experiência, decisões prévias, etc) como também pelo estilo das pessoas. Afinal como Ray menciona em Princípios de Vida, ele acredita que pessoas diferentes possuem cérebros que funcionam de maneira diferente.

Cartões de Baseball

Da mesma forma que o Super Trunfo®, os cartões de baseball da Bridgewater mostravam as “estatísticas” dos funcionários ajudando-os na hora de montar times. Fonte: Grow

Um dos processos mais criticados é o dos cartões de Baseball. Da mesma forma que o jogo Super Trunfo® – jogo onde existem cartas para cada personagem ou elemento com suas estatísticas – os cartões de Baseball nos EUA são famosos por coletar informações e estatísticas sobre jogadores avaliando suas habilidades.

Ray se inspirou nesses jogos para criar os “cartões de baseball” dos seus funcionários. Todos os funcionários possuem um cartão que ilustra seus níveis em diversas habilidades incluindo pontos positivos e negativos.

Um processo um tanto quanto chocante, mas que no longo prazo se mostrou muito eficiente afinal as pessoas sabiam sobre os pontos fortes e fracos das outras pessoas podendo então organizar seus times da melhor maneira.

Assim foram evitadas diversas frustrações ao se promover pessoas a atividades nas quais elas não se dariam bem devido a suas características, por exemplo, pessoas que são boas em observar o todo geralmente não são boas em ter atenção aos detalhes. E certas atividades, como elaboração de contratos, exige muita atenção aos detalhes.

Botão de Dor

Ray acredita que Dor + Autoanálise = Progresso. Dor é um sinal importante que não deve ser ignorado, pois indica que existe a possibilidade de aprender. Porém, nós sabemos que refletir sob o efeito de emoções como raiva, frustração ou tristeza não é a maneira mais eficiente.

O Botão de Dor é um aplicativo que permite aos funcionários registrarem suas emoções no momento em que estão sentindo e mais tarde voltarem para fazer uma reflexão auto orientada através de questões pré-programadas no aplicativo.

Essas ferramentas ilustram muito bem o viés analítico trazido por Ray e seus princípios. Todos os problemas e desafios que enfrentou ao longo de seus mais de 40 anos de carreira foram destilados em princípios. Estes, por sua vez, inspiraram a criação de ferramentas que vieram a ajudar seus funcionários a superarem desafios similares.

5. Paixão e trabalho como um só

Para Ray, paixão e trabalho bem sucedido devem andar juntos. Foto por Chandan Chaurasia.

Segundo Ray trabalho pode ser visto de duas maneiras:

  1. Um meio para ganhar dinheiro e sustentar uma vida que você queria.
  2. Um meio para realizar sua missão

E ele nos convida a encontrar um que seja uma combinação dos dois. Devemos sim realizar nossa missão através do trabalho, mas não podemos negligenciar o valor do dinheiro.

E a melhor forma de seguir nossa própria paixão no trabalho é com a ajuda de relações excelentes com outras pessoas.

Essa excelência gera um certo desconforto, afinal não podemos abrir concessões para simplesmente evitar que os outros se sintam desconfortáveis. A exigência de se trabalhar em alto nível faz com que tenhamos que incentivar as pessoas ao nosso redor a se tornarem melhores sempre.

Ray Dalio sempre viu essa situação como uma forma de amor. Sempre foi muito próximo dos seus funcionários nos primeiros anos de sua empresa indo em casamentos, convidando-os para ir a sua casa e também sendo duro com eles para que se tornassem cada vez melhores.

A comunidade foi crescendo e essas relações foram evoluindo.

Acredito que o ponto mais interessante do livro é como Ray Dalio vê essa forte correlação entre felicidade e qualidade das relações de trabalho. Promover um ambiente no qual há amor e exigência gera valor. Esse valor para os clientes é essencial para que todos saiam ganhando.

O valor que a empresa traz para os clientes é convertido em receita para empresa fazendo com que essa comunidade de pessoas que estão batalhando por suas paixões também seja remunerada.

Em um dos primeiros memorandos que escreveu para seus funcionários ele diz:

“[…] Nossos destinos estão entrelaçados. Todos precisam saber que podem contar com a ajuda de todos. Em virtude disso, desempenhos abaixo do padrão não podem ser tolerados em parte alguma, pois prejudicam a todos.

Dinheiro é um subproduto da excelência, não um objetivo. Nosso objetivo maior é a excelência e o aprimoramento constante. Em outras palavras, não é fazer uma montanha de dinheiro, embora não estejamos pressupondo que você deva ser feliz com pouco. Pelo contrário — espere lucrar bastante.

[…]

Cada um na Bridgewater deve agir como proprietário, responsável por agir dessa maneira e por cobrar a responsabilidade dos outros em agir assim.”

Podemos extrair grandes resultados ao combinar nosso trabalho com nossas paixões sempre tendo princípios claros que irão nos guiar em momentos difíceis de dúvida e ou de tomada de ações que não são tão confortáveis.

Acredito que o aprendizado é assim: da mesma forma que ficamos felizes ao superar um grande obstáculo na nossa vida, aprendemos através dos desafios e das situações desconfortáveis. Não é fácil mas os resultados são incríveis!

Conclusão

Ray Dalio cria em Princípios um manual para o sucesso. Detalha não só teorias, mas também as recheia de histórias de sua longa carreira. Como dizem no mercado financeiro, um livro extraído direto do campo de batalha.

Este livro é uma ótima inspiração para aspirantes a empreendedor ou gestoras em empresas de todos os portes. Um manual que vale a pena ter por perto na hora de desenhar uma organização que seja eficiente e em que todos possam evoluir em uma meritocracia de ideias.

O uso da inteligência emocional é fundamental para a criação de uma empresa de sucesso. Afinal, as ideias de várias pessoas quando compartilhadas aumentam as chances de se obter ideias melhores ainda.

Uma empresa é um conjunto de pessoas em uma cultura que permite que elas sejam bem sucedidas em seus trabalhos. Através da sinceridade e transparência radical aliada a um sistema para superar desacordos é possível criar uma cultura onde as pessoas conseguem trazer o seu melhor sem medo.

Como diz Simon Sinek, escritor americano, uma organização sob o efeito do medo ou da tensão não consegue extrair o melhor das pessoas que ali estão.

A sinceridade está aliada ao amor exigente, que faz com que as pessoas esperem mais umas das outras, mas que sempre haja respeito mútuo.

Ray Dalio e seus princípios são conhecidos mundialmente. Ele menciona diversas vezes em entrevistas como a vida é composta de três partes: na primeira você depende dos outros, na segunda os outros dependem de você e por fim na terceira você encontra prazer em ajudar os outros a serem bem sucedidos.

Segundo o próprio autor, hoje ele se encontra na terceira fase da vida. Onde poderá saborear a vida ajudando as pessoas a serem bem sucedidas. Seu objetivo é fazer com que seus princípios alcancem o maior número de pessoas.

No vídeo abaixo ele resume seus princípios de vida em uma maneira dinâmica e fácil de entender.

Uma animação de 30 minutos criada por Ray Dalio para explicar seus princípios de vida. Possui legendas em português.

Brasileiro vivendo na Holanda viciado em livros e em aprender coisas novas. Meu objetivo é ajudar muitas pessoas a se tornarem melhores e mais capazes através do esforço próprio para no futuro poder causar um impacto positivo no mundo.

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